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Resumen de ponencia
Negociando horizontes de possível: uma análise de (auto)biografias de pessoas trans na transição democrática brasileira

*Luiza Ferreira Lima



O presente trabalho se propõe a iniciar uma investigação sobre elementos organizadores da composição literária que visam dar inteligibilidade e legitimidade a trajetórias e subjetividades de pessoas transexuais em biografias e autobiografias publicadas no Brasil entre as décadas de 80 e 90. Parte de minha pesquisa mais ampla de doutorado, que se debruça, em uma perspectiva comparada, sobre processos de subjetivação inscritos em e produzidos por biografias e autobiografias elaboradas ou planejadas por pessoas transexuais e publicadas no Brasil e nos Estados Unidos, neste paper pretendo dar atenção às primeiras publicações brasileiras do gênero e ao modo como, narrativamente, reagiam a um cenário nacional de repressão política atravessado por moralidades conservadoras.
Neste contexto político tenso, de vigência de ditadura militar até 1985, seguida pela implementação de uma democracia incipiente, liberdades individuais e direitos políticos ainda estavam sendo paulatinamente reconhecidos. Embora figuras como Roberta Close, Thelma Lipp e Claudia Wonder ocupassem espaço como símbolos sexuais na TV e nas revistas, nas ruas travestis e transexuais eram vítimas de violência e abusos policiais. A existência de pessoas que, assignadas a um determinado “sexo” ao nascer, o recusassem como definidores de sua subjetividade e reivindicassem o reconhecimento de outra identidade de gênero, não era sequer considerada possível por certas camadas da sociedade brasileira; para outras, as formas de elaboração e apresentação de si empreendidas por pessoas transexuais e travestis eram vistas como imorais, doentias, reprováveis.
Além de não serem citadas como sujeitos de direito em nenhum tipo de documento legal em meio a este processo de proliferação de normas com a implementação da democracia, pessoas trans viram suas subjetividades qualificadas como transtornos mentais na 10ª Classificação Internacional de Doenças da Organização Mundial de Saúde em 1990. Debates públicos que questionassem fronteiras e limites socialmente estabelecidos entre categorias tomadas como dadas, tais quais natural versus construído, verdade versus aparência, masculino versus feminino ainda eram muito incipientes no Brasil; a visibilidade ao tema das subjetividades trans era pautada por uma linguagem que mesclava curiosidade e aversão. A associação entre trânsitos de gênero e erotismo, marginalidade e criminalidade era feita automaticamente.
Ao longo desses anos, as primeiras biografias e autobiografias de pessoas transexuais e travestis foram lançadas no país: em 1982, Anderson Herzer publica “A queda para o alto”; em 1984 é a vez de João Nery lançar “Erro de pessoa” e um ano depois, em 1985, a de Lorys Ádreon com “Meu corpo, minha prisão”. Na década seguinte, Fernanda Farias de Albuquerque em co-autoria com Maurizio Janelli publica “A princesa” em 1995 e três anos depois Roberta Close tem sua história de vida contada por Lucia Rito em “Muito prazer, Roberta Close” – mesmo ano em que Ruddy Pinho lança “Liberdade ainda que profana”. Alguns deles receberam considerável atenção da imprensa; outros foram sucesso de vendas e podem ser considerados best sellers. Como isso poderia ser possível em uma conjuntura tão desfavorável a sujeitos que vivenciavam trânsitos de gênero, e ainda tão fortemente marcada por um período longo de intolerância e repressão de liberdades individuais?
Considerando a articulação entre condições histórico-sociais que estruturam a existência dos autores e sua produção artística, este trabalho é norteado pelas seguintes questões: como tornar a história de vida de uma pessoa trans algo atraente e a biografada inteligível ao leitor imerso nesse contexto? Quais representações de transexualidade e travestilidade são questionadas e quais são reproduzidas? Quais regimes de discursividade são acionados e quais são afastados? Quais as estratégias narrativas mobilizadas por autores e co-autores para não só fazer com que o texto seja compreendido mobilizando formas de organização de sentido em circulação social, mas também questionar estereótipos estigmatizantes associados a transexualidade e/ou travestilidade? Quais os motores da escrita apresentados explícita ou implicitamente pelas pessoas biografadas, e quais os efeitos políticos desejados que essas escritas de si assinalam?




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* Ferreira Lima
Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade de São Paulo PPGAS/USP. São Paulo, Brasil