Print Friendly and PDF



Resumen de ponencia
Ficção científica e distopia no cinema: pode o futuro antecipar o presente?

*Lucas Barreto Catalan



Este trabalho trata-se de uma apresentação do projeto de doutorado que busca compreender como a representação de futuro nas ficções científicas distópicas carregam de forma mais imanente uma perspectiva de criticidade ao presente, em lugar de uma dimensão autentica de futuro.
Pensar o futuro sempre foi algo tentador para o ser humano, imaginá-lo de uma maneira completamente distinta da realidade presente, trazendo aspectos novos de uma sociedade almejada. Parcela significativa destas “alucinações” ficaram a cargo da ficção utópica, podemos lembrar aqui da obra Utopia de Thomas Morus, na qual imagina-se uma sociedade guiada por instituições fortes, livres da cobiça de riquezas como ouro e prata, utilizadas apenas no intercâmbio com outras sociedades com o intuito de preservar o modo de vida sem interferência externa, preservando-se assim uma sociabilidade harmoniosa.
A partir do século XVII este “pensar futuro” incorpora os avanços científicos e as descobertas tecnológicas, o progresso da ciência ganha importância fundamental para se pensar a modernidade e a futura modernização. Surge assim o gênero da ficção cientifica: estas obras andam lado a lado com os passos dados na ciência, muitas vezes até antecipando, no imaginário, acontecimentos que viriam a ocorrer. Este gênero obteve desde seu princípio bastante popularidade, temos marcadamente as obras de Júlio Verne e do inglês Wells, ambos do século XIX. Se os tramas científicos destes autores ganharam o gosto e o imaginário popular em páginas, na era da imagem e de aprofundamento das tecnologias em nossas vidas não seria diferente, a ficção científica ganha as telas dos cinemas e o sucesso nas bilheterias, basta lembrarmos do filme de volta para o futuro (1985, 1989, 1990), em três volumes.
É importante identificar, então, a presença de dois formatos de ficção científica, a primeira, a ficção científica utópica, na qual a tecnologia é posta como possibilidade de um futuro melhor, criando situações nas quais geralmente as máquinas permitiriam novas vivências interessantes e relevantes para humanidade; já a ficção científica distópica, vincula os homens às máquinas no futuro visualizando o modo de vida de maneira pessimista, cruel e esvaziado dos sentidos que atribuímos à existência nos dias atuais. Identificamos, de certo modo, esta característica no clássico de Shelley, Frankenstein, ou o prometeu moderno (1818), apesar deste ainda trazer de forma latente a possibilidade humana de, através da tecnologia, modificar as coisas, os objetos, construir um ser; como também em diversos filmes contemporâneos (a exemplo de eu sou a lenda - de Francis Lawrence (2007) -; guerra mundial Z - Marc Forster (2013) -; Matrix - Lana e Lily Wachowski (1999)) -. É importante notarmos essa particularidade, pois podemos perceber tanto uma ficção científica de exaltação a tecnologia, vista como capaz de colaborar para um aperfeiçoamento do mundo, quanto uma ficção científica torneada de crítica a uma sociedade que se encontra profundamente unificada à ciência. Nesse contexto a ciência poderia ter resultados danosos para a própria sociedade. Ademais, é interessante notar que, as ficções científicas distópicas trazem uma aguçada criticidade à sociedade presente, representando as deturpadas aspirações tecnológicas que aprofundariam ainda mais o caráter brutal desta sociedade.
Devido a este conteúdo estético-crítico é notório que para além da constituição de um imaginário de futuro, as obras de ficção científicas tornam visíveis aspectos da realidade atual.
Por perceber o objeto artístico como uma externalização da subjetividade do artista, sendo esta subjetividade constituída pela realidade vivenciada por este, a arte é, tamém, uma representação da realidade mediatizada pelo imaginário de seu criador. Pensar a arte é compreender este seu duplo caráter, um aspecto, vinculado à objetividade constituinte do artista, de outro, a possibilidade criativa, engendrada na subjetividade particular de quem a produz. Sendo a obra de arte composta por um artista que vivência o hoje, a representação estética do amanhã traz uma dualidade ímpar, aspectos de um imaginário futuro carregado de elementos presentes.
Partindo desse pressuposto, o trabalho visa investigar como é encontrado nas obras de ficções científicas o conteúdo do presente nas representações de futuro. Estudar os futuros da humanidade propostos na ficção científica é abrir uma janela de entendimento para a perspectiva do que existe no presente vivido, um vínculo umbilical do tempo presente e do tempo vindouro.
A pesquisa busca debruçar-se analiticamente sobre três obras, sendo estas: Gattaca (Andrew Niccol, 1997) a qual tece uma forte reflexão sobre a eugenia e a busca de um corpo humano estético e geneticamente perfeito; Minority Report – a nova lei (Steven Spielberg, 2002) por representar uma sociedade que consegue superar o terror da insegurança, apontando um caminho extremamente eficiente para conter a violência social; e Matrix - filme um - ( das irmãs Wachowski, 1999) o qual representa uma sociedade distópica dominada pelas máquinas, nela os homens estariam em permanente estado de fantasia onírica, sendo suas ações transferidas para o plano do imaginário, gerando uma sociedade controlada ao extremo.




......................

* Barreto Catalan
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA - UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA PPGCS-UFBA. Salvador, Brasil