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Resumen de ponencia
Contraescola: reflexões teórico-práticas sobre uma categoria poético-política de Eduardo Galeano

*Vitor Bemvindo



Em 1998, o escritor uruguaio Eduardo Galeano lançou o livro "Patas Arribas: La Escuela del Mundo Al Revés". Trata-se de uma crônica sobre o papel da escola na sociedade burguesa sob hegemonia do Capital. Valendo-se da metáfora do mundo ao avesso para caracterizar a sociedade contemporânea ele destaca como a escola serve para reforçar valores como o medo, a injustiça, o racismo, o machismo e comportamentos como o individualismo, a competitividade e a solidão. Para Galeano, “O mundo ao avesso nos ensina a padecer a realidade ao invés de transformá-la, a esquecer o passado ao invés de escutá-lo e a aceitar o futuro ao invés de imaginá-lo: assim pratica o crime, assim o recomenda. Em sua escola, escola do crime, são obrigatórias as aulas de impotência, amnésia e resignação. Mas está visto que não há desgraça sem graça, nem cara que não tenha sua coroa, nem desalento que não busque seu alento. Nem tampouco há escola que não encontre sua contraescola” (GALEANO, 2009, p. 17). Apesar do uso do termo, o escritor uruguaio não desenvolve de forma pormenorizada o que seria uma contraescola. Aqui só conseguimos compreender a contraescola em contradição com a escola do “mundo ao avesso”. Podemos ter alguns elementos sobre a ideia que ele desenvolve, em forma de crônica literária, utilizando de muitos recursos poéticos, através da leitura em especial do último capítulo da obra, que é dedicado a contraescola. Nele, Galeano utiliza figuras que nos remetem a disputa por hegemonia, tal qual foi proposto por Antonio Gramsci, como pode-se notar no seguinte trecho: “Na urdidura da realidade, por pior que seja, novos tecidos estão nascendo e esses tecidos são feitos de uma mistura de muitas e diversas cores” (GALEANO, 2009, p. 299). Ideia análoga está em Gramsci na clássica citação “A crise consiste precisamente no fato de que o velho está morrendo e o novo ainda não pode nascer. Nesse interregno, uma grande variedade de sintomas mórbidos aparecem”. Entre os sintomas mórbidos, estão elementos do novo que quer nascer, os novos tecidos. Podemos fazer uma analogia entre os novos tecidos utilizados por Galeano e a categoria de contra-hegemonia (ou hegemonia alternativa) proposta por Raymond Willians, com base nas reflexões gramscianas: “Uma hegemonia vivida é sempre um processo. Não é, exceto analiticamente, um sistema ou uma estrutura. É um complexo realizado de experiências, relações e atividades, com pressões e limites específicos e mutáveis. Isto é, na prática a hegemonia não pode nunca ser singular. Suas estruturas internas são altamente complexas, e podem ser vistas em qualquer análise concreta. Além do mais (e isso é crucial, lembrando-nos o vigor necessário do conceito), não existe apenas passivamente como forma de dominação. Tem de ser renovada continuamente, recriada, defendida e modificada. Também sofre uma resistência continuada, limitada, alternada, desafiada por pressões que não são as suas próprias pressões. Temos então de acrescentar ao conceito de hegemonia o conceito de contra-hegemonia e hegemonia alternativa, que são elementos reais e persistentes da prática” (WILLIAMS, 1979, p. 115-116). Chega-se a esta conclusão com o desenrolar da leitura quando Galeano cita nominalmente as iniciativas de movimentos sociais como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (o MST) e os Zapatistas, além dos sem-teto, os sem-trabalho, lutadores pelos direitos humanos e educadores populares, setores da sociedade civil (conceito gramsciano utilizado por Galeano) responsáveis cada vez mais pela construção de contra-hegemonia. Sendo assim, o presente trabalho acadêmico pretende trazer reflexões de caráter teórico em torno a categoria poético-política de “contraescola”, visando dar o tratamento teórico que o texto literário do escritor uruguaio não teve a preocupação de se aprofundar. No entanto, esse trabalho estaria incompleto, tendo-se em vista que se referencia teórico-metodologicamente no materialismo histórico-dialético, se fizéssemos apenas uma reflexão de caráter teórico sem analisar dados concretos da realidade. Por isso, trataremos de uma experiência concreta que pode ser caracterizada como uma contraescola: o Instituto Politécnico de Cabo Frio, iniciativa escolar de formação de trabalhadores elaborada como projeto de extensão do Núcleo Interdisciplinar para o Desenvolvimento Social (NIDES) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A contraescola em questão tinha como referência político-pedagógica as contribuições marxianas sobre educação politécnica e a categoria gramsciana de trabalho como princípio educativo e foi responsável por desenvolver práticas pedagógicas integradoras que a aproximam de experiências da pedagogia socialista, obviamente limitadas pela estrutura do desenvolvimento do capitalismo brasileiro. Esta reflexão, prentende dar elementos teórico-práticos para a complexificação da categoria “contraescola”, elaborada por Galeano com o intuito poético-político.




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* Bemvindo
Faculdade de Educação da Universidade Federal da Bahia FACED-UFBA. Salvador, Brasil