A presente comunicação discutirá as contribuições que os estudos decoloniais trazem para a reflexão acerca do trabalho com a literatura marginal, especialmente a escrita por mulheres negras, em sala de aula. A promessa de modernidade impregnou especificidades à América Latina que abrangem sua existência econômica, política, social e cultural, sendo a literatura um eixo relevante desse último nicho. Refletiremos sobre o deslocamento que a literatura marginal causa na ideia que fundou o sistema literário brasileiro, amplamente ligado às noções da modernidade, e como isso coaduna com os objetivos propostos pelos estudos decoloniais.
O cânone literário brasileiro formou-se buscando as obras literárias que abordassem a formação da nação brasileira em seu enredo, a chamada literatura empenhada por Antonio Candido (2007). Tal empenho estaria no esforço em se desvincular da literatura realizada pelos portugueses tendo em vista a formação de um sistema literário nacional. No fim do século XIX e durante o todo XX, diversos críticos literários se debruçaram sobre o estudo e compreensão de tal literatura que referenda-se, entre outros aspectos, na ideia de nação como um pilar fundacional. Porém, muitas obras literárias brasileiras foram escamoteadas na formação desse sistema, isso é o que demonstra parte da crítica literária contemporânea ligada aos estudos de gênero e culturais. Tal compreensão trouxe à tona questionamentos sobre a formação do sistema literário brasileiro e a ideia de nação que o inaugurou, discussão que interessa a essa comunicação.
Parte da crítica literária brasileira mais recente se debruçou em escrutinar o que veio a formar o cânone literário nacional. O advento dos estudos das diferenças, subalternos, feministas e culturais acolheram e fomentaram o cenário que promoveu a mudança do paradigma de compreensões que levam à valoração de dada obra em detrimento de outras. Esse cenário de reflexões consolidou a constatação de que o cânone da literatura brasileiro abarca em seu interior obras de homens heterossexuais brancos e de classe média alta em detrimento daqueles e daquelas de fora dessas identidades.
Unindo as ponderações feitas por parte da crítica literária brasileira contemporânea vinculada aos estudos de gêneros, culturais e decoloniais e partindo da ideia de que o Estado-Nação na América Latina é uma das falhas da modernidade, segundo Aníbal Quijano (2005), perguntamos: como o ensino de literatura no trabalho com obras literárias consideradas marginais, especialmente aquela escrita por mulheres negras que buscam ser/estar no mundo fora das possibilidades impostas pelas id-entidades europeias, pode ser uma das tarefas da decolonialidade? Além disso, pensaremos sobre como a ideia de nação pluriétnica, mas que vias de fato formou-se excludente epistêmica e ideologicamente, é colocada em xeque pelas expressões artísticas dos sujeitos não convidados para a pseudo partilha da modernidade.
O projeto decolonial aponta as feridas da modernidade/colonialidade e intenciona promover um desprendimento e ruptura com o jeito de pensar binário, estabelecido pela filosofia cartesiana, pois outras experiências e visões também podem e devem explicar o mundo, o que questiona a colonialidade do saber, conceito elaborado por Aníbal Quijano (1992), que explica as relações sociais estabelecidas pela Europa à América Latina.
Ter a subjetividade de um grupo historicamente explorado e racializado compondo os registros da altamente valorizada literatura é uma forma de demonstração de que existem outras possibilidades de expressão na modernidade que não as impostas pelas id-entidades europeias, termo cunhado por Aníbal Quijano (1992). Bem como surge como uma materialização do que seria o giro decolonial, proposto por Maldonado Torres (2006) e que, para ele, não deve se restringir às ciências sociais, pois a política, as artes e a economia são processos constitutivos da sociedade. Logo, por eles passam a compreensão do que se é, do que se foi e do que se quer ser. Nomear-se e narrar-se é importante recurso discursivo decolonial, pois constrói imaginários e alimenta subjetividades. Por isso, a literatura é área estratégica para as tarefas que o giro decolonial suscita. Sendo assim, pensar no nas produções contemporâneas de uma literatura escrita por jovens negras como Meimei Bastos e Mel Duarte, ambas originárias dos saraus e slams que ocorrem principalmente nas periferias de Brasília e São Paulo, é colocar as tensões limitadoras que definiram nosso sistema literário no palco da sala de aula a fim de imaginarmos o futuro e alternativas para as práticas pedagógicas dos professores e professoras de literatura.