Estudar as experiências da ditadura argentina e os usos das memórias produzidas sobre ela pode nos levar para diversos caminhos, no entanto, o das artes visuais acabou por ser o elegido para esse estudo. Assim, cabe a esse trabalho, um estudo da série Nadie Olvida Nada, do pintor argentino Guillermo Kuitca, procurando tratar da questão da memória em suas telas, as quais resgatam marcas da experiência vivida por diversas vítimas no período da ditadura.
Uma noção que permeia esse estudo é tentativa da fuga da ideia de contexto, fazendo com que a preocupação do historiador seja com a historicidade. Desse modo, o trabalho não tem como intuito entender a obra de Kuitca como um todo, como também não parece primordial compreender a ditadura argentina em certa dimensão, a fazer desse estudo um trabalho factual. Busca-se colocar a série em diálogo com um conjunto de problemas de certa historiografia, se alinhado mais as leituras do alemão Andreas Huyssen, e bebendo muito de contribuições como as da crítica literária Beatriz Sarlo e do filósofo e historiador da arte Georges Didi-Huberman.
Na série Nadie olvida nada, do ano de 1982, Kuitca faz um trabalho de luto e resgata marcas da experiência vivida por diversas vítimas no período da ditadura, como também demonstra características que se inserem em um debate contemporâneo acerca da memória, passado e trauma, evitando explicitamente a arte política. O pintor faz um trabalho de luto sem ser de forma explícita, faz uma pintura realista, se utilizando da figuração, mas não de uma forma representativa imediata, com um realismo torto, simplório.
Assim como o tempo, a arte e a imagem estão submersas em memória. E no final do século XX, um artista que carregou esse sentido em sua pintura foi Guillermo Kuitca, com uma produção melancólica, repleta de contradições, transformações e intensidade, à maneira da virada de século. O artista argentino é grande nome na cena internacional contemporânea, e nas palavras de Andreas Huyssen em Culturas do passado-presente "Kuitca é um modernista posterior ao modernismo, sem ser pós-modernista. Um artista que confia na pintura como um modo de conhecer o mundo através da forma estética estruturada. É um pintor posterior à pintura." (HUYSSEN, 2014, p.39).
Tendo começado a vida artística ainda muito jovem, Kuitca se voltava mais para o teatro, mas logo tendeu a pintura, que foi o meio onde viu possível uma mescla entre o concreto e o abstrato, o figurativo e o estrutural, a se apropriar assim dos modos modernistas de representação. A obra de Guillermo Kuitca ganha um caráter inovador no ano de 1982 com a série Nadie olvida nada, sendo essa década caracterizada como uma época encharcada pela questão memória.
Em um livro lançado nos anos 2000, Seduzidos pela memória, Andreas Huyssen aponta que a memória pode estar se tornando um peso excessivo pelo mundo. Esse final do século XX se caracteriza por um período que olha para trás e vê um século de destruição. Há uma decadência de valores e relacionamentos, de forma a existir forte sentimento de melancolia e nostalgia. E desse modo, o Kuitca também é tido como o pintor da catástrofe, do drama da vida moderna. A memória e sua importância tende ao crescimento nessa atual conjuntura temporal, as histórias do passado recente, que, segundo Beatriz Sarlo são sustentadas quase que apenas por operações de memórias, conseguem assim atingir a esfera pública.
Em meio a isso, Kuitca consegue apresentar através de seus quadros, o silêncio e o vazio que os anos de repressão na ditadura deixaram em muitas pessoas. É uma pintura que vista pela primeira vez, fora da circunstância em que foi produzida, pode não parecer uma expressão do que foi a ditadura, porém, seu significado se encontra na subjetividade da obra e do pintor. Ao pintar figuras como sombras, corpos flutuantes em um espaço sem perspectiva, personagens sem nome, que não se sabe quem são, de onde vem, nem o que vai acontecer com eles, somos remitidos à prática da desumanização e despersonalização, presente na relação da ditadura argentina para com os ditos "subversivos".
A produção dessa série foi íntima ao agir contra o terror militarista em que o país se encontrava, Kuitca buscou em sua produção um reconhecimento das vítimas em sua subjetividade. Ao pintar uma cama amarela com o lençol semi-aberto em "Nadie olvida nada", o artista quis representar um espaço que estava à espera de abrigar um corpo ausente, que não voltaria, que havia sido retirado à força de lá, "a cama se encaixa com a sua presença um pedido de pressionar seu vácuo" disse Kuitca em entrevista. Outra marca desse fim de século é a violência, registrada na série pelas almas perdidas, vagando no espaço dos quadros, pertencendo elas, a um mundo de extremo terror e hostilidade.
Tido como marca muito forte desse período, em paralelo a uma cultura de memoralização, o testemunho tem uma relação direta com a experiência, pois é aquilo que a vitima viveu, a experiência dela, colocada em um relato. E Kuitca, busca relatar essa experiência através da arte, explorando a tela. Segundo Huyssen: "O nada [de nadie olvida nada] capta a ausência, o vazio em que foram lançados os argentinos desaparecidos. [...] o que aconteceu com cada desaparecido no cativeiro não poderá ser lembrado enquanto permanecer não documentado." (HUYSSEN, 2014, p. 43).
A fim de estreitar o estudo da série de Guillermo Kuitca, um fragmento do livro de Andreas Huyssen acerca da tensão entre os pólos "espaço público" e "espaço privado" − os quais Kuitca não tenta conciliar, mas sim trata de romper −, é bem esclarecedor: "As cenas são privadas: uma cama, figuras individuais. [...] A ditadura anula a separação entre o público e o privado, quando as pessoas vão arrancadas de suas de suas camas e presas em suas casas, durante a madrugada" (HUYSSEN, 2014, p. 43). Kuitca assim consegue resgatar em sua obra marcas da experiência vivida por diversas vítimas no período da ditadura, como também demonstra características que se inserem em um debate contemporâneo acerca da memória, passado e trauma. Não se trata de 'arte política' no sentido tradicional, mas de um trabalho que traduz em linguagem plástica, de modo convincente, a lembrança de um momento histórico.
Guillermo Kuitca pensa sua arte e, principalmente, a pintura como um meio resistente, não de resistência. Para ele, a pintura é resistente ao tempo, às mudanças nos séculos, ela resiste às épocas e as mudanças dentro do campo das artes, têm a capacidade de se reinventar. A fazer um paralelo com o artista, Georges Didi-Huberman, um historiador da arte, fala que o tempo, a imagem e a arte têm uma sobrevivência, sendo assim, o passado é algo que sobreviveu. Tal como Walter Benjamin, diz que o passado não tem existência, ele tem resistência, resiste em nós. Sendo essa insistência no passado uma condição de memória. O que podemos sugerir que para Kuitca, também é uma condição da pintura, visto que a mesma tem uma dimensão subjetiva particular e própria.
A série Nadie olvida nada, segundo o artista no livro Guillermo Kuitca - Obras 1982-1998, hoje, parece estar totalmente vinculada aos desaparecidos e ao "nunca más", estando assim, atravessada pela experiência argentina, pelas narrativas e pelo contexto histórico e social. Dessa forma, essas obras sempre tiveram um eco da situação política, mas de forma muito menos explícita, não sendo uma simbologia imediata, e sim, uma espécie de alegoria.
Há uma diversidade de possibilidades e um importante conjunto de leituras a ser destrinchado sobre a série Nadie olvida nada, de modo que esse trabalho surge com o escopo de contribuir para os debates acerca da ditadura, memória e trauma em que a série de pinturas se insere, e também como forma de dar uma maior atenção a série enquanto uma produção artística que está inserida no que aqui chamamos de neoexpressionismo ou transvanguarda.