O presente trabalho, ainda em curso, busca estabelecer a concepção de uma família de eleição (eudemonista), unida pelo afeto. Desse modo, se tentará produzir uma leitura possível acerca da representação da família no livro “O filho de mil homens” e dos personagens que se portam à margem das normatizações sociais, bem como uma leitura da condição feminina e homoafetiva dentro dessa construção familiar. Nesse caso, toma-se como pressuposto o fato de se utilizar o afeto como possibilidade de investigação teórica.
Na obra de 2011, escrita pelo português Valter Hugo Mãe, presencia-se um ambiente solitário, no qual um homem, Crisóstomo, chega aos quarenta anos sem ter construído uma família, com a sensação de não pertencimento, um homem que necessita de um filho, que precisa construir uma relação familiar, que necessita ser pai. Ele é um personagem-abismo, que busca um espaço de convivência junto à afetividade. A narrativa se inicia desse modo:
Um homem chegou aos quarenta anos e assumiu a tristeza de não ter um filho. Chamava-se Crisóstomo. Estava sozinho, os seus amores haviam falhado e sentia que tudo lhe faltava pela metade... Via-se metade ao espelho porque se via sem mais ninguém, carregado de ausências e de silêncios como os precipícios ou poços fundos. Para dentro do homem era um sem fim, e pouco ou nada do que continha lhe servia de felicidade. Para dentro do homem o homem caía. Um dia, depois de ter comprado um grande boneco de pano que encontrou à venda numa feira, o Crisóstomo sentou-se no sofá abraçando-o. Abraçava o boneco e procurava pensar que seria como um filho de verdade, abanando a cabeça igual a estar a dizer-lhe alguma coisa. Afagava-lhe os cabelos enquanto fantasiava uma longa conversa sobre as coisas mais importantes de aprender. [...] Queria dizer meu filho, como se a partir da pronúncia de tais palavras pudesse criar alguém (MÃE, 2011, p.15).
Já no início da narrativa, observa-se que Crisóstomo decide inventar uma família: “Decidiu que sairia à rua dizendo às pessoas que era um pai à procura de um filho. Queria saber se alguém conhecia uma criança sozinha” (Ibidem, p.18). Por meio da reconfiguração de si mesmo, a contar de uma nova concepção familiar que o personagem irá se estabelecer em busca do encontro com o outro.
O objetivo central dessa pesquisa é analisar a relação entre sociologia e literatura, tomando como corpus a obra “O filho de mil homens”, do escritor português Valter Hugo Mãe, com o propósito de compreender as relações sociais constituídas entre os personagens, por meio da concepção de uma família unida pelo afeto. Como objetivos específicos, busca-se produzir uma leitura possível acerca da representação da família em “O filho de mil homens”, de Valter Hugo Mãe, tomando por base que a definição de família tem passado por diversas alterações e que a concepção de uma família nuclear, tal como a restrição a laços sanguíneos não engloba os variados arranjos que se observam nas sociedades contemporâneas; deseja também analisar de que forma a condição feminina é colocada na narrativa do escritor Valter Hugo Mãe de modo a compreender como se dão os arranjos familiares ligados pelo afeto na obra “O filho de mil homens” e compreender de que maneira se dá o discurso patriarcal e heteronormativo na obra “O filho de mil homens” e de que modo se efetiva a percepção de si da narrativa, tomando por base que o narrador é heterodiegético, ou seja, busca contar a história por meio do discurso do outro.
Se os sociólogos se utilizam da literatura para revelar, exemplificar e interpretar os processos sociais, a predileção da pesquisa é de se construir um trabalho sociológico, estudando, pois, uma obra artística, e percebendo a homologia entre a estrutura da visão de mundo do grupo social a que pertence a estrutura história do texto em questão. Perquirir as relações entre sociedade, literatura e sociologia constitui-se como um grande e novo desafio, tomando por base que fazer “sociologia da literatura” pode exprimir questões diversas em conformidade com as formas como se compreende a sociedade, a literatura e a sociologia.
Imprescindível destacar que toda pesquisa sobre qualquer fenômeno social, como a literatura, acarreta certa imagem geral da sociedade e seus resultados acrescentam ou subtraem plausibilidade a essa imagem. É importante, pois, pensar na singularidade da obra literária e sua natureza social. Por fim, Larire (2018, p. 48) informa que as dimensões formais da obra literária são perfeitamente estudáveis de um ponto de vista sociológico e não constituem um ponto de discórdia para os pesquisadores das ciências sociais.
É necessário destacar que não se pode dispensar nem menosprezar disciplinas independentes como a sociologia da literatura e a história literária sociologicamente orientada, bem como toda a gama de estudos aplicados à investigação de aspectos sociais das obras, - frequentemente com finalidade não literária (CANDIDO, 2014, p. 18). Conforme afirma o autor, a arte se constitui enquanto um sistema simbólico de comunicação inter-humana e como tal interessa o sociólogo (Idem, p. 31). Já Facina (2004; p.22) afirma que as formas literárias são produtos que buscam expressar realidades também históricas e não elementos universais e atemporais.
Tomando por base a relação entre Bourdieu e a sociologia das obras, partindo do pressuposto que ele compreende o campo literário enquanto espaço de poder, parte-se da análise de que a sociologia das obras fornece uma autonomia ao campo literário, percebendo suas especificidades, interpretando esse campo por meio de uma realidade social preponderante na produção do artista. Para Bourdieu (1996; p. 244) o campo do poder é o espaço das relações de força entre agentes ou instituições que tem em comum possuir o capital necessário para ocupar posições dominantes em diferentes campos (econômico ou cultural, especialmente).
O estudo da literatura não pode se limitar às relações entre o escritor e sua obra, entretanto visa conseguir “(...) destrinchar os elos necessários, vinculando-os a unidades coletivas cuja estruturação é muito mais fácil de apurar e elucidar” (GOLDMANN, 1967, p. 206). Sobretudo pelo fato de que:
A experiência de um único individuo é muito mais breve e demasiado limitada para poder criar tal estrutura mental; esta não pode deixar de ser o resultado da atividade conjunta de um número importante de indivíduos que se encontrem numa situação análoga, isto é, que constituam um grupo social privilegiado, indivíduos que tenham vivido muito tempo e de maneira intensa um conjunto de problemas e se tenham esforçado por lhe encontrar uma solução significativa. Isto equivale dizer que as estruturas mentais, ou, para empregar um termo mais abstrato, as estruturas categoriais significativas não são fenômenos individuais mas fenômenos sociais. (GOLDMANN, 1989, p. 12-13).
Para o desenvolvimento dessa pesquisa é fundamental compreender sob a ótica sociológica qual a aproximação das narrativas. Ianni (1998, p.70) afirma que cabe reconhecer, ainda, que a literatura e a sociologia aproximam-se bastante no que se refere à construção de tipologias. Ambas as narrativas estão repletas de tipos e tipologias elaboradas literária e sociologicamente. Já Lahire (2018) destaca a reconstrução dos contextos sociais da criação literária, destacando os moldes mentais e sociais de sua experiência:
Respeitar cientificamente uma obra é respeitar a realidade das condições em que ela foi criada. É pode-se-ia dizer, “construir o ponto de vista do autor” (Pierre Bourdieu), especificando que essa construção científica não cobre o ponto de vista subjetivo, consciente, que o autor poderia ter das coisas, mas sem reduzir esse ponto a um lugar no universo literário. Trata-se de recompor o conjunto de pressões interiores (disposições e competências) e exteriores, passadas e presentes, que agem sobre o criador e determinam sua criação, tanto em suas dimensões formais quanto nos enredos que ele desenvolve. (LAHIRE, 2018; p. 70)
A pesquisa segue uma abordagem qualitativa, voltada para aspectos micro sociológicos, o campo é a literatura portuguesa de Valter Hugo Mãe. A metodologia que será utilizada para realização deste trabalho será levantamento bibliográfico acerca do tema do estudo, isto é, todos os romances de Valter Hugo Mãe.
O processo inicial consistirá na leitura e releitura das obras, realizando fichamentos, a partir do quais serão divididos em eixos temáticos a fim de se compreender a questão do afeto, da família e da condição feminina na narrativa. Concomitante a interpretação do texto literário, será feito um estudo acerca do contexto histórico da obra e do autor. A interpretação do texto literário, o contexto histórico da obra, do autor e dos dados biográficos permitirão que se faça leituras essenciais a fim de se perceber de que forma as ideologias perpassam a escrita do texto ficcional, captando a análise social de Valter Hugo Mãe.
De modo que as perspectivas idealistas e materialistas não suprem as necessidades de se realizar esse trabalho no ramo sociológico da literatura, opta-se por se utilizar uma posição mediadora, com a qual a literatura expressa visões de mundo que são coletivas de determinado grupo social. Essa posição mediadora sofre influência metodológica da Sociologia compreensiva, recurso metodológico racionalista, de modo a captar a relação de sentido da ação humana.