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Resumen de ponencia
Representações de uma juventude singular: considerações sobre jovens conservadores nas revistas Veja e IstoÉ (1980-1999)

*Nathália Hermann



O presente trabalho tem como objetivo analisar a representação criada pelas revistas Veja e IstoÉ de uma juventude brasileira retratada como conservadora, no recorte temporal que engloba as décadas de 1980 e 1990. O contexto da época, marcado pelo fim do regime militar que desencadeou uma crise econômica e política no país, influenciou a representação de juventude produzida pelas revistas. Levando-se em conta estudos que alertam para a necessidade de se trabalhar com o conceito de juventude destacando as pluralidades da faixa etária (PAIS, 1990; MARGULIS e URRESTI, 1996; ABRAMO, 1997), a juventude em questão, objeto de análise deste trabalho, representava uma pequena parcela dos jovens brasileiros da época. A partir das contribuições do historiador Roger Chartier (1990; 2011) acerca do conceito de representação e de autores que trabalham com a história da imprensa (CAPELATO, 1988; LUCA, 2005; MIRA, 1997), 28 reportagens das estão sendo analisadas. Ao longo da análise das reportagens selecionadas, 16 na revista Veja e 12 na revista IstoÉ, a representação de uma juventude conservadora, consumista e individualista se faz presente nas publicações. As três temáticas não aparecem isoladas nas reportagens; muito pelo contrário, estão, na maioria das vezes, relacionadas umas às outras. Os eixos que permeiam essas inter-relações são voltados ao consumismo, a sexualidade e à comparações com gerações anteriores a das juventude das décadas de 1980 e 1990. A passagem da ditadura para a democracia trouxe impactos emblemáticos para jovens tanto da década de 1980, que vivenciaram o processo de redemocratização, quanto para jovens que viveram nos anos 1990, os quais sofreram as reverberações do processo. O recorte selecionado para a presente pesquisa é marcado, no território brasileiro, por um processo de ampliação dos direitos civis posterior a uma ditadura militar que perdurou por duas décadas. Com a constituição de 1988, o auge do retorno desse processo, uma série de direitos sociais foram garantidos à população numa época de consolidação de uma democracia plena (Aarão Reis, 2014). A temática principal do presente trabalho, a juventude, é uma categoria que, historicamente não pode ser definida como um todo equivalente em todos os quadrantes da história. Não existe uma única definição válida para definir a juventude, pois a mesma é uma construção sociocultural que se adequa e se modifica de sociedade para sociedade (LEVI; SCHMITT, 1996, p. 7-8). Por se tratar de uma época de transição entre a infância e a vida adulta, a juventude se situa entre estas duas faixas etárias. Esse caráter transicional garante à juventude a ideia de uma fase da vida que carrega consigo uma série de mudanças e inquietudes, justamente porque é nela que os indivíduos desenvolvem suas maturidades intelectuais e sexuais, assim como o pleno florescimento de suas faculdades mentais (LEVI;SCHMITT, 1996, p. 8). Por conta da complexidade de demarcação e definição da categoria juventude, a interdisciplinaridade se faz essencial para trabalhar com a categoria. A a sociologia, assim como outras áreas do conhecimento, são importantes para estudos dentro da temática. Para os sociólogos Mario Margulis e Marcelo Urresti, em seu texto “A juventude é mais que uma palavra”, é necessário ir além da juventude como uma demarcação etária uniforme pois a categoria, como condição histórico-cultural, não é vivenciada de forma igual para todos os integrantes inseridos na categoria estatística jovem. Analisar as representações de uma juventude específica com um alto poder de consumo no contexto de crise das décadas de 1980 e 1990 é extremamente complexo pois essa juventude é privilegiada em detrimento das outras juventudes brasileiras. As reportagens analisadas se utilizam de recursos narrativos para tomar um tipo de realidade como padrão; a partir daí, as publicações homogeneizam grupos sociais não levando em conta que as sociedades são constituídas de diversas realidades. É esse processo que acontece com a juventude nas fontes analisadas. Por fim, este trabalho objetiva analisar a representação de uma parcela da juventude brasileira. A partir de suas práticas e hábitos que aparecem nas reportagens, esses jovens, que se transformaram em personagens das narrativas jornalísticas, se diferenciaram do restante das juventudes brasileiras por conta de seus privilégios.




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* Hermann
Universidade do Estado de Santa Catarina UDESC. Florianópolis, Brasil